A travessia do desconhecido – A maior praia do mundo

Eu sempre acredito que nada acontece por acaso. Acredito que Deus faz as coisas como elas devem ser e não como eu gostaria que fossem. Cheguei a Porto Alegre no dia 29/11, por volta das 10h. Estava com fome. Vi um jovem senhor e um rapaz parados, sentados e pedi para que olhassem minha mochila enquanto eu comprava algo para comer. O garoto me olhou sem entender e o pai respondeu que sim, com o típico sotaque argentino.

Alcidez e seu filho moram no Brasil e fazem um trabalho voluntário de recuperação de dependentes químicos. O Alcidez morou por 12 anos na região onde acontece a ExtremoSul e me deu detalhes de como era tudo. Me ofereceu um doce de amendoim e deixou comigo também a passagem bíblica de Timóteo 2:4, a qual me fez lembrar do meu amigo e um dos melhores ultras do Brasil, Urbano Cracco : Combati o bom combate, venci a corrida, guardei a fé. Alcidez logo foi embora.

Quem me acompanha de perto nas provas, sabe que a alimentação durante a prova é algo que eu tenho deficiência. Foi o motivo pelo qual abandonei a prova Caminhos de Rosa, que estava em minha mente o tempo todo. O doce que Alcidez me deu e que eu levei para prova, lá perto do km 150, foi o que consegui comer. Não tenho dúvidas de que Alcidez estava ali naquele aeroporto me esperando, em atendimento às minhas orações para que os anjos estivessem ao meu lado neste desafio.

 

De Porto Alegre seguimos para a cidade de Rio Grande. Após o credenciamento e uma rápida volta pela cidade (que é muito bonita), descansamos. No dia 01/12 largamos às 14:10 dos Moles da Barra. Foi a primeira vez que uma Ultramaratona largou “de dentro do mar.” A prova é em semi suficiência, logo, ao longo da praia, teríamos como reabastecer a água aproximadamente a cada 20km e haveriam bases maiores, onde teríamos atendimento e comida. Estas estariam nos km 65, 107, 138 e 173. O sol estava a pino e ventava muito, porém a nosso favor. No km 05 percebi que meu pé esquerdo estava encharcado, minha bolsa de hidratação havia furado e água escorrido pela perna. Enrugou meu pé e me fez parar logo no km 07 para verificar a situação. Estava em condições de seguir e fui embora. O cenário da prova é lindo, mas é impossível não observar e pensar na quantidade de animais mortos. Baleia, Leões Marinhos, focas, tartarugas, todos mortos de forma natural, animais que vão ao Extremo Sul do Brasil para descansar. Segui firme e forte até o km65.

 

Com a minha chegada no km 65 descobri que a situação do meu pé esquerdo não era boa. Logo pedi à enfermeira para olhar e escutei: “Vamos resolver isso logo”! Minha amiga Magda, com seu carinho e habilidade incríveis, em meio à noite e às rajadas de vento e areia que ameaçavam levantar o acampamento, cuidou do meu pé, eliminando o enorme calo de sangue. Isso tudo só aconteceu porque eu ouvi meu treinador: “Olha, no menor sinal de bolha, para e cuida”. Por isso parei no km 07 para ver e depois para cuidar.

 

Feito o tratamento, veio a hora mais difícil: comer bem! Eu não consigo… é sacrificante. Mas ali, “sozinho” eu tinha que comer para seguir pois 65km não representava nem 30% da prova. Foi então que eu vi, não imaginei… eu vi! Meu amigo Carlos Gusmão  na minha frente me dizendo: “Ou você come ou é fim de prova, Você só vai sair daqui depois que comer!”. Ouvindo exatamente essas palavras, eu comecei a beber o caldo do macarrão, chupar laranja, comer banana, comer bisnagas e um pouco do macarrão. Perguntei a ele se estava boa a quantidade que ingeri e após receber um sim com a cabeça, me levantei e duas horas após chegar nesta base, eu saí para passar a primeira noite.

 

Ao sair da base do km 65 para enfrentar a primeira noite, eu estava saindo para encarar um adversário gigante: o sono. Acontece que não importa o que eu faça, ele vem e vem forte. Decidi então que correria o mais próximo da margem possível, para o caso de que se eu dormisse correndo, provavelmente me molharia e acordaria rápido. Mas logo de cara minha lanterna iluminou os primeiros olhos da noite, e eu fiquei muito acordado. Eu não sei se são lobos, ou cachorros do mato. Sei que são muitos, mas quando estavam em 1 ou 2 sempre saíam correndo. Em dado momento minha lanterna iluminou muitos deles e percebi que não se afastavam. Ao me aproximar vi todos eles devorando uma baleia. Confesso que aumentei o ritmo.

 

A noite foi passando e como estava correndo bem, logo encontrei outros corredores. Eis que um deles estava cansado e com pensamentos de abandonar a prova. Resolvi então acompanhá-lo até a próxima base, no km 107. Ficamos batendo papo e logo a noite passou e veio o show do astro rei. Deixei o outro atleta seguir sozinho por um instante e fiquei admirando o sol nascer. Quanta reflexão este momento me trouxe. Eis uma das coisas que eu acredito que a Ultramaratona nos proporciona. A busca para o limite físico abre uma porta para o espírito, tudo faz sentido. Os pensamentos e os momentos são mais marcantes.

 

Aquele nascer do sol foi meu combustível para o resto da prova, aquele já era o meu troféu. Tamanho presente de Deus. Ao chegar na base do km 107 encontrei meu amigo Ariosvaldo, que havia sentido muito os pés e tomou a difícil, mas acertada decisão de parar. Foi bom ver o amigo e ele me ajudou muito nesta base. Recebi atendimento da fisioterapia também (fica aqui uma dica que sempre falo: se a prova tem fisioterapeutas, use-os!) e segui firme para base do km 138. Lá, já muito cansado, eu comi bem e tomei uma coca cola!!! Maravilhaaaa! Descansei mais um pouco e segui para base do km 173 e a segunda noite.

 

A caminho da base do km 173 ajudei mais um companheiro a se manter na prova. Quando cheguei na base, haviam muitos outros atletas. Na hora eu pensei em sair logo dali e garantir uma ótima colocação na prova. Mas fiquei para descansar. Fui o penúltimo atleta a sair, horas após os outros. Corri bem novamente até o dia amanhecer, e com ele, veio a chuva. Continuei firme até alcançar os demais atletas. Cheguei até um dos atletas mais velhos da prova, 57 anos e fiquei com ele por um tempo… depois segui. Ultrapassei mais um atleta e avistei mais dois à frente. Estava bem. Quando olho para trás, vejo ao longe o atleta mais velho e resolvo esperar. Ver aquele cara correndo depois de 200 km era inspirador. Passamos então a seguir juntos. Em dado momento ele chegou à exaustão, mas não desistiu. Passei a marcar os passos na areia para que ele pisasse sobre eles e seguisse. Ele foi de uma garra sem igual. Finalmente avistamos a chegada. Ficamos felizes. Recepcionados por duas argentinas, passamos a subir uma pequena ladeira, onde vejo meu amigo Ariosvaldo emocionado ao me ver. Eu também me emociono.

 

Eu havia atravessado a maior praia do mundo. Eu havia conquistado o objetivo. Eu havia feito novos amigos. Foram muito mais que 226 km de areia. Foi uma jornada que me lembrarei para sempre. Como os que chegaram se auto intitularam… Eu sou um SOBREVIVENTE!

 

Marcos Ladislaué Técnico de Segurança do Trabalho  e Ultramaratonista da Equipe Ultra Sports em Vila Velha-ES

 

OBS.: A Extremo Sul Ultramarathon é a marca da travessia da maior praia do mundo. Com largada da Barra do Cassino em Rio Grande-RS e chegada a Barra do Chuí em Santa Vitória do Palmar, os participantes terão 54 horas para concluir estes desafiadores 226 quilômetros.

 

     

        

 

 

2017-12-20T15:29:22+00:00

9 Comentários

  1. Marcelo Kajiwara 11/01/2018 at 12:55 - Reply

    Parabéns, Marcos!
    Belo relato, bom ler tua história.

  2. Ariosvaldo Junior 22/12/2017 at 10:19 - Reply

    Parabéns meu amigo, só quem esteve nesta prova sabe da dificuldade que é atravessar esta praia, Tmj.

  3. Braz Marino Galter 21/12/2017 at 18:08 - Reply

    Parabéns Marcão Ladislau.
    Sensacional sua estória.
    Vai ficar para sempre no seu currículo de Ultramaratonista.
    Você é um exemplo para nós, monstrão….
    Show….

  4. Anônimo 21/12/2017 at 18:08 - Reply

    Parabéns Marcão Ladislau.
    Sensacional sua estória.
    Vai ficar para sempre no seu currículo de Ultramaratonista.
    Você é um exemplo para nós, monstrão….
    Show….

  5. Giselda 21/12/2017 at 11:53 - Reply

    Excelente história e grande experiência. Parabéns! Você é um vencedor! ????????????????????????????????????

  6. Weverson Riva 21/12/2017 at 11:11 - Reply

    Parabéns Ladislau!!!
    Bela história para guardar por muitas gerações.

  7. Virgínia Pâmela 21/12/2017 at 07:33 - Reply

    Que história linda! emocionante! Sensacional!!!
    Parabéns!!!!

  8. Kim 21/12/2017 at 06:39 - Reply

    Marcão é diferenciado!!!! Parabéns pelo relato e por dividir essa experiência com os fãs de ultramaratonas.

  9. Paulo Ladislau 21/12/2017 at 01:47 - Reply

    Sensacional

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