Correr ao som do U2 – Ultramaratona 24horas

Correr ao som do U2 – Ultramaratona 24horas

Três encapuzados sequestram um taxista. Dois deles portam fuzis adaptados para dispararem automaticamente. O terceiro, uma pistola igualmente automática. Entram no banco de trás do carro. No carona, deixam uma maleta tipo 007. Ordenam ao motorista para que siga em direção ao extremo leste do Ulster, cortando o Victoria Park. Estamos em Belfast. No final dos anos 90. Exatamente no Victoria Park, o motorista se enche de coragem. Abre a porta do carro em movimento e se projeta. Seu corpo rola por parte da pista e invade o gramado. Ele consegue se levantar. Trôpego como um bêbado, corre e grita: “Uma bomba! Uma bomba!”. Na pista, o carro, em velocidade, ziguezagueia. O pneu direito sobe no meio-fio. Capota. E explode. Os três terroristas do Exército Republicano Irlandês (IRA) morrem. O atentado parece ter sido programado para o exato momento da transferência de poderes da polícia e da Justiça de Londres para Belfast, no âmbito do processo de paz para a Irlanda do Norte.

Anos depois, uma outra guerra se desenrolava no mesmo Victoria Park. Uma guerra interior. Eu e o meu corpo. Enquanto percorria cada quilômetro da Ultramaratona de 24horas IAU Belfast 2017, não podia deixar de pensar sobre o histórico de superação do povo irlandês. Sua resistência aos ataques terroristas brutais perpetrados pelo IRA. E a capacidade de transpor tudo aquilo, no processo de construção da paz.  Estava em território de um país de uma população orgulhosa de sua história. Eu mesmo me orgulhava de disputar uma prova representando o meu país e vestindo a camisa da Seleção Brasileira. A história de superação do povo irlandês e o orgulho de representar o Brasil foram os motivadores maiores para me lançar nas 24 de Belfast, nos dias 1º e 2 de julho, na Irlanda do Norte.

Parti de Vitória, Espírito Santo, em 24 de junho, com destino a Dublin. Foram 40 horas de viagem até encontrar meus companheiros de Seleção. Éramos em cinco, ao todo. Quatro homens e uma mulher.  As 24horas IAU Belfast 2017 reuniram 400 atletas de 42 países. Os melhores do mundo. Reunimo-nos na belíssima Universidade de Queens. Nos hospedamos e fizemos nossas refeições juntos, numa excitante Babel que envolvia atletas de ponta dos quatro cantos do planeta. A excitação desse encontro era inevitável.  Ali encontrei meus amigos spartanos, os argentinos Fernando Petraccio e Pablo Barnes, e o húngaro TorokLaszlo, de quem fui presenteado com uma garrafa de vinho. A cerimônia de abertura foi no dia 30 de junho. Uma emoção à parte. Nunca havia entrado em um estádio desfilando junto à delegação do Brasil, em meio a tantas seleções. Naquele momento pude perceber o tamanho e a importância daquele evento e a dimensão da minha responsabilidade.

Faltavam poucas horas para ser dada a largada. E essa aconteceu no dia 1º, às 12h. A meta seria percorrer a maior distância em 24 horas. A largada aconteceu no sábado, mas o domingo seria sangrento.

(Atenção: a partir de agora, leia o artigo ao som de “Sunday, Bloody Sunday”, da banda irlandesa U2  https://www.youtube.com/watch?v=JySRC6nOA8s)

Iniciei a prova bastante consciente. Frequência cardíaca a um ritmo de 140 bpm. Alimentação, ok. Hidratação, ok. Superado o 42º quilômetro, a surpresa. Os batimentos subiram para 160 por minutos. Sinal vermelho. Reduzi a velocidade para voltar à normalidade dos 140 bpm e seguir em velocidade de cruzeiro. Passadas seis horas de prova, dores. Estômago, gases e cólicas. A partir dai, passo a administrar , simultaneamente, idas ao banheiro, reposição hídrica e ritmo de corrida. A estratégia funcionou. Pelo menos até a 20ª hora da corrida. A partir dali parei de me alimentar e perdi um pouco a orientação e o equilíbrio. A comida simplesmente não descia. A equipe sugeriu que eu deitasse. Comecei a entrar em hipotermia e precisei ser encaminhado para o atendimento médico. Game over.

O “Domingo sangrento” foi uma barbárie das autoridades britânicas contra a população civil da cidade de Derry, na Irlanda do Norte, em 1972. Os manifestantes protestavam contra a política britânica de prender, sem julgamento, qualquer suspeito de fazer parte do IRA. O protesto foi brutalmente reprimido pela polícia inglesa. Treze civis – inclusive crianças – foram mortos. A população irlandesa, como já disse, é um exemplo de perseverança e superação. Amedrontada pelo terror do IRA de um lado; reprimida pelas forças oficiais britânicas, do outro, hoje se reinventou e transformou a capital Belfast, assim como a Irlanda do Norte, como um todo, em uma nação orgulhosa de sua população, sua história e sua gente. Algo por demais e extremamente inspirador. Sobretudo para nós, brasileiros, acuados que estamos em um cenário deteriorado pela falta de ética dos nossos dirigentes e a desesperança em relação ao nosso futuro.

Com esses pensamentos contraditórios, a esperança irlandesa e a desencanto diante de um Brasil degenerado, faltando 12 minutos para o final da prova fui assistir meus amigos de Seleção concluírem a última volta das 24horas, com a marca de 170km. Pouco para aquilo que me propunha e para o qual treinei, mas o suficiente para pontuar o Brasil, já que nossas três maiores distâncias entravam para o somatório da delegação e, a que eu percorri, foi a segunda maior nacional. Saio do mundial com dois sentimentos: o primeiro, ter feito menos que poderia. O segundo, o de missão cumprida. Como bom brasileiro, que sou, contribuí para que meu país  subisse do 32º lugar (obtido no mundial de Turim, em 2015) para a 26ª colocação, este ano.

Ali, em meio ao ressurgimento de uma Irlanda que se refez após anos de terror, de um povo altivo e soberano, me deu um orgulho danado de ser brasileiro e ter feito algo por meu país. Porque meu país é o do melhor do seu povo, e não o do seu pior, daqueles que nos governam. O amor é o meu país.

 

Carlos Gusmão é professor de Educação Física, sócio proprietário da Assessoria Esportiva Ultra Sports e Ultramaratonista

Artigo narrado e editado pelo Jornalista e Ultramaratonista Maninho Pacheco

 

          

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Comentários

  1. Relato maravilhoso, fazendo paralelo com acontecimentos ocorridos na Irlanda…Viver e estar lá nesse país deve ter sido já um incentivo à corrida. Esforço mais que recompensado por representar esse nosso Brasil, enfrentando dificuldades, mas cheios de mãos amigas para compensar. Parabéns e é de gente assim que esse Brasil precisa!

  2. Relato dos mais 🔝🔝🔝 união de 2 amigos que se entregam de corpo e alma qdo se propõem a fazer algo ..Gusmao como grande atleta e Maninho como intelectual..tem o dom da boa narração … domina o mundo das letras… show!!!Parabéns!!!👏👏👏

  3. Que experiência incrível! Parabéns Gusmão pela força de sempre e parabéns querido Maninho pelo texto maravilhoso!!!

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