Jungle Marathon. A ultramaratona no coração das trevas

Jungle Marathon. A ultramaratona no coração das trevas

Estava completamente só, no coração da Floresta Nacional dos Tapajós. Entardecia. As primeiras cigarras entoaram seus cânticos. Araras, muitas araras retornavam para seus ninhos, com estardalhaço. Pássaros de todas as cores e dimensões disputavam cada galho das centenas para o descanso noturno, nas milhares de árvores ao meu redor. Meus pés estavam em carne viva e muito infectados. Subia com dificuldade uma das inúmeras elevações. Não encontrava a saída. Não havia mais sinalização fluorescente. Olhava em todas as direções. Era apenas eu e o verde. Estava no ventre da floresta. Era o veto daquela magnitude. A lanterna falhava com a pilha já com pouca bateria. Me locomovia com dificuldade para um lado. E para o outro. Uma árvore monumental, de cinco, seis, dez metros de diâmetros encontrava-se caída na minha frente. Esgueirei-me como pude por debaixo dela. Passei para o outro lado. Escureceu. O primeiro macaco bugio soltou o seu guincho na copa de uma árvore. Tentei enxergá-lo. Outro respondeu com um grito semelhante na copa de uma outra. Virei o rosto para tentar o contato visual. Um outro macaco também gritou. E mais cinco. E dezenas. E centenas. Uma orquestra enlouquecedora de bugios faria uma sinfonia que se estenderia por toda a noite. A lanterna apagou. Completamente. Estava só e perdido no coração da Floresta Nacional dos Tapajós, território do Pará, na Amazônia Legal. Voltei para debaixo da árvore. Passaria a noite ali. Cobras, insetos e aranhas eram preocupações menores. Meu pavor eram as onças. A luz forte de uma lanterna a um palmo do meu rosto me iluminou completamente. Dei um pulo. Era Roberto. O atleta que encontrei no ônibus a caminho da Patagônia Run e disse que aquilo era uma “prova para meninas”. Iluminou seu próprio rosto e me disse, em tom sarcastico: “Viu, Bruno, isso sim é prova de macho!”. Desligou a lanterna. Desapareceu. A escuridão total da noite voltou. Tremia de frio intenso. Abraçava meu corpo o mais que podia. Súbito, senti que não estava sozinho. Havia alguém ao meu lado na escuridão da selva, embaixo daquela árvore monumental. “Não desista, pai. Me traga a medalha”, disse Breno, meu filho, debilitado, em sua jornada de quimio e rádioterapia. “Não vou desistir, meu filho. Te prometo!”. Ele se aproximou de mim, me abraçou, me beijou e também desapareceu. Não sei há quanto tempo me encontrava deitado na madrugada da floresta até sentir algo gelado na planta do meu pé totalmente dilacerado. Um cheiro forte de amônia e carniça tomou conta do ar. Gritei o mais alto que pude. Ao abrir os olhos, duas imensas bolas de vidro, que deduzi serem olhos, também, estavam fixadas nos meus, a menos de cinco dedos de distância. Era “ela”. Escancarou a boca o mais que pode, ostentando seus quatro caninos, tão brancos que reluziam na escuridão total, e inundando o ambiente com um forte hálito de matéria em decomposição. Soltou seu rugido característico e aterrorizante. Toda a minha vida foi revista em uma fração menor que de um segundo.

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Gritei o mais alto que pude e sentei-me na cama. “O que houve, Bruno, mais uma vez?”, perguntou Magda, minha mulher, que também acordou assustada. “Novamente, Magda”, respondi, atônito.

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Por um ano, após terminar a versão 2014 da JungleMarathon, tive sonhos e pesadelos recorrentes com a experiência que vivi naquela prova. Ninguém que dela participa sai dali indiferente. Algo de muito poderoso muda em você. Passei a me relacionar com Deus de uma outra forma. Acreditei mais em mim e em meu potencial.

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“Você sabe que o que está indo fazer é uma prova para meninas, não sabe?”.

Estava no interior de um ônibus da organização da Patagônia Run 2013 para encarar inimagináveis 63 km quando o ultramaratonista ao meu lado chamado Roberto fez a provocação. Ele vinha da edição 2012 da Jungle Marathon, a mais temível ultramaratona do planeta, realizada na Floresta Amazônica, em Santarém, estado do Pará. Por seu grau de dificuldade extremo, aquilo sim, era “prova de macho”. A provocação funcionou. Meu sinal de alerta acendeu. Disse, para mim mesmo: “opa!”.  Foi um pulo a distância desse “opa!” para sondar efetivamente meu amigo ultramaratonista Elcio Alvares Neto sobre a possibilidade de participarmos da 10ª edição da Jungle Marathon, em outubro de 2014. Ele topou. Topou e ele mesmo concebeu a planilha de treinos. Planilha essa que acabei furando, devido aos tratamentos oncológicos do meu filho.

Estava inscrito na Jungle Marathon 2014.

Não fazia a mais remota ideia do que estaria por vir.

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Santarém, Pará. Outubro de 2014 – Junto ao meu parceiro de prova Elcio, chegamos no local mais próximo ao paraíso que já pisei, Alter do Chão. Dali, partimos em uma viagem de barco de 12 horas Rio Tapajós acima, rumo ao interior da Floresta Nacional do Tapajós. Me acomodei na rede de dormir. Era apenas eu e a minha mochila autossuficiente, com o rol de itens obrigatórios, exigidos pela organização. No dia seguinte chegamos em Tabocal. Desembarcamos na casa do Sr. Júlio e lá permanecemos por dois dias em uma espécie de aclimatação com a elevada temperatura e a sufocante umidade do ar que proporcionavam uma sensação térmica próxima a 50°C. Naquele curto período me alimentei como um sentenciado no corredor da morte, ciente das privações, sobretudo alimentares, que me aguardavam. Também ali no “bunker” do  Sr. Júlio os atletas receberam instruções técnicas elementares de sobrevivência na selva e alertas sobre os riscos que enfrentaríamos. Naquele prazeroso confinamento, reencontrei o ultramaratonista Roberto. O provocador do ônibus da Patagônia e hoje um bom amigo. Por sua experiência na Jungle Marathon, pedi-lhe que me ajudasse a eliminar os excessos da minha mochila. Ele retirou itens preciosos que, ali no paraíso do Sr. Júlio, me pareciam essenciais. Agradeci a ajuda. Quando se afastou, recoloquei alguns itens na mochila. Mais tarde, a selva me cobraria com severidade esse ato inconsequente.

A PROVA

1ª  Etapa, 26 km: 5/10/14
2ª  Etapa, 28 km: 6/10/14
3ª Etapa, 36 km: 7/10/14
4ª Etapa, 42 km: 8/10/14
5ª Etapa, 127 km: 09/10/14
6ª Etapa, 16 km: 11/10/14

Largamos. Por mais lento, ao chegar ao quilômetro 3 me deparei com um grupo de atletas mais rápidos atacados, há pouco, por um enxame de vespas. À minha frente, um holandês, assistido pelos colegas, encontrava-se em convulsão, devido às picadas. Entendi aquele cenário com algo como um bizarro “bem-vindo à Jungle Marathon“. Sejamos honestos, apenas essa primeira etapa já remetia o grau de dificuldade da Patagônia Run a um nível de jardim de infância. As primeiras desistências começam a ser anotadas. Sobretudo quando se passa por uma região conhecida por “Beco de Onça” devido à alta concentração desses felinos. No seminário técnico, a orientação básica de sobrevivência com relação à forma de encarar esses animais era “nunca parar e sempre correr”. Ok. Mas vai seguir essa orientação na prática, com intermináveis e íngremes montanhas, transformando tudo aquilo em trechos não corríveis. Terminei a primeira etapa em 11 horas. A clássica “o que estou fazendo aqui?”, meio veio à cabeça. Pela primeira vez pensei em desistir.  Mas isso estava fora de cogitação e parti para a segunda etapa, com doze subidas e descidas muito íngremes, além de várias travessias em igarapés repletos de temidas arraias, jacarés, enguias elétricas, cobras etc. Na terceira etapa, passados muitos pântanos, lamas e, é claro, novamente montanhas, meus pés começaram a apresentar a fatura. Sugiram as primeiras bolhas e feridas. Isso os pés. Em todo o corpo fui infestado por carrapatos. Na quarta etapa, somadas ao grau de dificuldade, digamos, já habitual, juntou-se descidas de morros com rapel e travessias de rios. Encharcadas, as mochilas meio que duplicavam de peso. Já não conseguia mais engolir a comida liofilizada que havia levado devido ao péssimo sabor e devido ao processo de desidratação que já sofria. Mas tive que forçar a alimentação, sob pena de ser desclassificado. O alento de todo aquele inferno foi o contato com as comunidades indígenas locais, sempre muito receptivas. A última etapa (6ª) é a curta. Mas a quinta, é a longa, 127 km. O maior dos percursos. Largamos às 4h da manhã para encarar a crueldade. Só havia dormido três horas. Melhor, gemido três horas. As dores por todo o corpo, sobretudo os pés, eram intensas. Desesperantes. Com o corpo extremamente debilitado, reduzi anda mais meu já lento ritmo. Após 42 Km da largada tive que dormir na selva com outros atletas. Uma equipe de salvamento nos protegeu contra um eventual ataque de onça. A jornada continuou no dia seguinte. Faltavam “apenas” 80 para a chegada. Já faltara mais. Nesta etapa passei por lindas praias às margens do Rio Tapajos, por extensos pântanos, caverna e rios. Em um momento me distanciei dos outros atletas e me encontrei à noite sozinho dentro da selva amazônica que, naquele momento, já me parecia ser infinita. Conclui a “etapa longa” poucos minutos antes do corte. A emoção era intensa e incontrolável. Só faltavam 16 km para concluir, não uma ultramaratona ou prova de resistência, mas aquela experiência de vida. De toda uma vida. No dia 11 de outubro de 2014 larguei com os demais atletas não-desistentes para o pórtico de chegada. Passamos por comunidades ribeirinhas que nos incentivavam. Passamos por uma longa estrada iluminada por um sol escaldante. Passamos novamente por lindas praias marginais do Rio Tapajos. Meus pés já não cabiam no tênis. A pressão sobre as feridas já era, então, insuportável. Sentia naquele momento muitas dores físicas e a emoção já havia me dominado porque a minha conquista estava muito próxima. Ao visualizar a linha de chegada tive que me manter em movimento até ultrapassá-la. Atravessei o pórtico calçando apenas meias de compressão. Tornei-me um “Survivor da Jungle Marathon”.

*****

No final do século XIX, o escritor inglês Joseph Conrad escreveu uma das obras-primas da literatura de seu país. “Coração das trevas” (“Heart of Darkness”), conta a historia do marinheiro do Império Britânico Charles Marlow. Ele recebe a missão da Coroa de encontrar na selva africana do Congo, a partir do rio do mesmo nome, o Sr. Kurtz, o mais importante comerciante inglês de marfim, há anos desaparecido. Aquela viagem para o interior da selva, ao encontro de Kurtz, acabaria sendo uma alegoria para sua viagem interior. Quanto mais penetrava na selva, mais penetrava em si próprio. Kurtz acabaria por catalizar todo o seu autoconhecimento, domínio e controle pessoal. Me transformar em um survivor da edição 2014 da Jungle Marathon exerceu em mim esse fascínio místico descrito por Conrad para seu personagem. Ao mesmo tempo um alumbramento interior incontido e uma forte revelação de quem eu era. E que, a partir de então, jamais deixaria a ser.

 

Bruno Silveira é advogado e Ultramaratonista

Artigo narrado e editado pelo Jornalista e Ultramaratonista Maninho Pacheco

 

 

 

 

 

 

 

 

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Comentários

  1. Brunão, lembro bem dos seus relatos a respeito dessa enorme Experiência, porém relembrando, nos minuciosos detalhes dessa matéria, só engrandece e potencializa os parabéns pelo seu feito! Essa prova realmente é pra Macho!
    Também registro aqui, o mérito do Maninho em apimentar ainda mais esses relatos com boas doses da competência profissão jornalística.
    TOP TOP TOP
    PARABÉNS AO BRUNÃO e MANINHO! Digno de Planeta Extremo!

  2. Brunão, parabéns pelo relato dessa experiência incrível que você teve o privilégio de participar! Tenho certeza que essa prova servirá de muita força em toda a sua vida nas mais diferentes situações como exemplo de força e persevera! Parabéns também ao Maninho Pacheco pelo apoio técnico na montagem desse belíssimo texto! Parabéns novamente! Abração

  3. Parabéns pela jornada Bruno…força interior demonstrada por poucos! Parabéns Maninho pelo envolvente texto! Sensacional!!!

  4. Brunão, foi um privilégio e uma rara honraria ter dividido com você a narrativa dessa sublime e transcendental experiência de vida. Foi de uma emoção incontida escrever cada parágrafo. Obrigado por escolher-me.

  5. Grande Bruno, feliz em ser seu amigo e saber desse depoimento incrível!
    Cada um tem o seu legado, e o seu será lembrado sem sombra de dúvidas, parabéns irmão.

  6. É uma narrativa extraída da vida real ! Esta brilhante estoria, somente poderia ser versada, considerando o vasto nível de detalhes, se o escritor, por mais brilhante que o fosse, tivesse trilhado cada passo contido nesta narrativa. Também possível, se estivesse registrando o relato de quem a vivenciou.
    assim, o foi !
    Bruno, muito obrigado por partilhar sua bela e desafiadora experiência de vida, no desafio da Jungle Marathon. Maninho, brilhante narrativa. Somente possível, considerando seu primoroso vocabulário e trato refinado com à escrita. Além, do privilégio de partilhar com o narrador , da louca emoção, de serem Ultramaratonistas !
    parabéns !!!

  7. Que história de superação e desafio! Sensacional!!! Parabéns! Próximo mês faço uma provinha de meia-maratona. Não sei mais como classificá-la: talvez uma prova para meninas de até cinco anos de idade.

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