Minha melhor loucura: a aventura de seis amigas em corrida gelada

Quantas loucuras você se permitiu fazer na vida? No meu caso, poucas. Muito poucas. A decisão de correr a Meia Maratona de Nova York em pleno inverno americano foi uma elas. E confesso, foi a maior e melhor loucura que me dei ao luxo de viver. No domingo 18 de março, eu e mais cinco capixabas acordamos em Manhattan às 4h da matina para nosso percurso. Três graus abaixo de zero, três meias, uma calça, quatro blusas, duas luvas, um gorro para cabeça e uma proteção para o pescoço.
Achou muito? Quase morri de frio mesmo assim.

A saída do hotel foi marcada para 5h20 porque as ruas da cidade fecham para a corrida. Chegamos de carro ao acesso mais próximo por volta das 6h e partimos a pé para o local de nossa largada. O sol ainda dormia resistindo ao staff de segurança e centenas de voluntários da cidade que já estavam acordados há tempos. Por conta do risco de terrorismo, a revista é grande e séria. Não é permitido o uso de mochilas e tudo é vistoriado na entrada da área da largada. E só passa quem tem número no peito.

De tanta gente, a corrida é dividida em ondas, separadas por letras do alfabeto. Para cada letra, um espaço isolado por cordas e banheiros químicos para uso daquele grupo. Uma organização de dar inveja a qualquer aventureiro que quisesse furar o bloqueio. Estávamos na letra K com largada prevista para 8h15, na segunda e última leva de corredores. Ou melhor, o grupo da letra A largaria neste horário e assim a onda avançava até chegar a nossa vez. Foram duas das mais congelantes horas que enfrentei nesta ou em qualquer outra vida que vivi. Não sentia mais nem os dedos dos pés e das mãos mesmo em constante movimento. O vento frio era tanto que em alguns momentos fugi para dentro do banheiro químico para me aquecer.

Depois de ouvir o hino americano, toques de corneta e gritos de guerra por várias vezes, chegou o momento de eu, Renata Aguirre, Lucia Helena Santiago, Cristina Dockhorn e as Julianas Leal e Magalhães cruzarem o pórtico da largada no bairro Brooklin rumo ao Central Park, na ilha de Manhattan. Todo o sofrimento inicial derreteu como neve ao longo de um percurso de quase 22 k, como meu relógio dedurou, com a fartura de água e Gatorade a cada 2 quilômetros, uma paisagem indescritível e uma torcida de inúmeros nova iorquinos que vão às ruas incentivar os corredores.
Uma organização impecável que preza até pela doação a pessoas carentes dos agasalhos que os corredores vão deixando pelo caminho. E, sem exagero, você tropeça em uma roupa a cada 100 metros do percurso.

Valeu cada passada, cada dólar, cada imagem e cada momento que passamos juntas. O nosso grupo de “verdinhas” corredoras, apelido alusivo à cor de nossa assessoria esportiva, riu, chorou, gritou e vibrou numa sintonia perfeita. Cada uma no seu ritmo amador e afinada em um mesmo propósito de superação. E modéstia à parte, arrasamos. Nosso coach Marcos Falcon deve ter ficado orgulhoso. Chegamos bem inteiras ao final da prova para receber aquela capa prateada que a gente só vê nos filmes. Haja foto na rede social para dar conta.

A corrida pra mim é assim. Uma soma de grandes pequenos momentos. Algo que me empodera, me emociona, me traz amigos, me fortalece e me faz crer que sou capaz de qualquer coisa. Sempre digo que quando pensaram que eu iria aposentar as chuteiras, eu calcei um tênis e fui correr. E foi a minha melhor escolha de vida. Já estou pensando qual será a próxima. Tenho certeza que deve ter muitos lugares no mundo para eu correr que nem uma louca.

Luciene Ventura é Jornalista e atleta da Assessoria Esportiva Vitória Runner

 

2018-04-05T17:06:49+00:00

2 Comentários

  1. Aline Rabelo 05/04/2018 at 20:42 - Reply

    Parabéns pelo artigo e pelas loucuras!!! Que venham muitas outras!!!

  2. Maria juliana Leal 05/04/2018 at 19:59 - Reply

    Foi demais! Realmente a melhor loucura da vida! Mas tudo vale a pena quando fazemos o que gostamos!!

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