Por que eu corro?

Sempre sou questionado sobre o porquê corro, e acredito ser esta uma pergunta frequente aos corredores amadores.

As pessoas que não são envolvidas com atividades físicas ao ponto de buscarem diariamente se superar, têm grande dificuldade de compreender a satisfação de vencer seus próprios limites, físicos e psicológicos.

Como praticante de artes marciais desde a infância, a corrida apareceu inicialmente como um complemento para melhorar a capacidade cardiovascular.

Todavia, os estudos, o trabalho pesado e, claro, um certo comodismo da minha parte, fizeram-me abandonar os esportes e ganhei quase 30 quilos em alguns anos.

Vi minha qualidade de vida despencar, taxas subirem, minha glicose no limite do possível e desenvolvi um início de esteatose hepática. O cenário era crítico. Foi quando busquei motivação para voltar a treinar e correr.

Nesse momento, descobri a corrida de verdade. A corrida pela corrida! Não como um complemento, mas como uma atividade que, para além de me ajudar a perder peso, fez com que eu recuperasse o gosto por novos desafios. Isso aconteceu em 2014.

Desde que percebi que podia correr, fui ajustando a técnica, a nutrição, os hábitos e estabeleci como primeiro objetivo correr a famosa 10 Milhas Garoto, maior prova da minha cidade, Vitória-ES. Desde então corri todos os anos.

Mas a grande meta, desde o meu retorno ao esporte, era a Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro, que, somente me senti plenamente preparado para os seus 21km em 2017.

Trabalhei pesado nos treinamentos desde o final de 2016. Contudo, faltando 3 meses para a prova, durante um treino de Muay Thai, estirei a panturrilha na famosa “síndrome da pedrada”. Rompi 7 centímetros do músculo gêmeo da perna esquerda, atingindo até o sóleo.

Tomografia feita. 20 sessões de fisioterapia. Previsão de voltar ao treinos: duas semanas antes da prova! Era praticamente o fim. Como correria meus primeiros 21 km após 3 meses de molho?

Ainda sim tive uma excelente recuperação. Consegui voltar a treinar 1 mês antes da prova, com uso de kinésio e meias de compressão. Voltei bem. Bom fôlego e boa resposta muscular e… a panturrilha fisgou de novo, na semana da prova, porém com menor intensidade.

Parecia que o destino não queria que eu fosse ao Rio. Fiz o que não é recomendável: treinei convivendo com a dor da lesão e na véspera do embarque para a Cidade Maravilhosa decidi tomar um anti-inflamatório para lesões musculares.

 

Resultado – e sim, é rir para não chorar: tive reação alérgica ao medicamento. Passei a noite de véspera da viagem em claro. Pensei mil vezes se ia ou não para o aeroporto. Era certo que eu não iria correr. Perderia tempo e dinheiro. Mas fui. Fui no otimismo que ao longo do sábado eu melhoraria.

Foi um sábado de cão no quarto do hotel. Nada parava no meu estômago. Por volta das  18h bati o martelo: não vou correr! Fico aqui no hotel domingo descansando até a hora do voo de volta. Mas algo lá dentro disse: põe o relógio para despertar cedo, vai que dá…

 

Despertei domingo. Nada comi no sábado. Estava fraco. Já com o estômago em ordem, desci para o lobby para tomar café e pensei “quem sabe não vou lá ver a largada?”. Cheguei no hall e muitos dos hóspedes que correriam já se alongavam. O clima estava contagiante. Tão contagiante que me veio em mente o inevitável: “Acho que é melhor comer na dieta. Quem sabe eu não ponho o tênis e faço pelo menos 5km? Afinal já estou aqui!”

 

Foi o que fiz. Coloquei minha camisa, meu tênis, meu número de inscrição.” Era impossível fazer 21 km”, dizia meu subconsciente.

Largamos de São Conrado e até descer a Niemayer para o Leblon – devem ser uns 3 ou 4 km – eu achei que ia morrer. Quando atingimos a praia, as pessoas torciam e incentivavam tanto que minha cabeça criou a estratégia mental de pensar “você não pode decepcioná-las”.

Ainda que o corredor amador seja um invisível naquele mar de gente, esse foi meu estímulo. Completei 5, 10 e quando cheguei ao 15º km o mal que passei, a lesão na panturrilha, nada me faria parar. Fui e voltei no aterro do flamengo para os 21 quilômetros e 800 metros percorridos. Enfim, consegui atingir meu objetivo.

No auge da 2ª Guerra Mundial, Winston Churchill, primeiro ministro inglês disse: “se estiver atravessando o inferno, continue andando”.

Pessoas já enfrentaram barras muito mais pesadas para que esse mundo fosse construído.

Essa é a resposta para a questão do início deste texto: correr é provar para si mesmo que você está pronto para fazer o impossível, se for necessário e convocado a fazê-lo.

 

Eliezer Brasil Soares Neto é Historiador e atleta amador

      

 

 

2018-03-07T09:49:28+00:00

Um comentário

  1. Hudson 28/02/2018 at 15:41 - Reply

    Muito bacana este relato
    Parabens Eliezer

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