Correr para Viver

Você que começou a correr recentemente ou que já corre há algum tempo já passou pela decisão de começar na corrida. Diferentemente da maior parte dos esportes a corrida não demanda nenhuma habilidade específica além de algo que você já sabe fazer há muito tempo. Quando você decide aprender a surfar, a jogar basquete, voleibol, lutas, normalmente procura um professor ou alguém que lhe dê um mínimo de instrução. Quando você inicia a corrida o faz por ter visto outras pessoas correndo ou por ter sido encorajado por outros corredores, então compra um tênis e começa a ensaiar as primeiras corridinhas no local da cidade onde todo mundo corre. Iniciado na corrida, começa a fazer contato com as tribos de corredores de rua e daí para as primeiras competições 5 K, 10 K e acaba em algum grupo de corrida para receber sua planilha e evoluir quem sabe até para uma maratona. Mas afinal, essa realmente é a melhor opção para começar?

Antes de qualquer esporte ou atividade de intensidade moderada a intensa seu primeiro passo deveria ser: Conhecer se você tem algum problema de saúde que o impeça de praticar essa atividade física. Então uma avaliação cardiológica com pelo menos um eletrocardiograma é o mínimo que você precisa. Do ponto de vista músculo esquelético é fundamental uma avaliação funcional feita por um profissional qualificado para isso. Ortopedista , Fisiatra ou Fisioterapeuta que tenha uma formação e conhecimento específico em avaliar movimentos. Medidas estáticas de comprimento ósseo ou de pisada estática têm uma capacidade muito limitada de predizer uma lesão na corrida. Então a avaliação precisa ser uma avaliação que leve em conta a qualidade dos seus movimentos e não simplesmente a forma que seu corpo está em repouso.

Quando você entra na corrida pela saúde ou qualidade de vida o mais importante é correr de forma segura. Eventos cardiovasculares são raros entre corredores, contudo arritmias cardíacas podem se tornar frequentes se você não respeita seus limites. A atividade aeróbica provoca inúmeros benefícios para o sistema cardiovascular, então se você passou pela sua avaliação cardiológica é só respeitar seus limites. Esqueça essa conversa que o limite está na sua cabeça, isso é para atleta de alto rendimento que vive do esporte e está disposto a pagar o preço da exposição ao risco diariamente. Use seus limites para seu benefício, melhorar seu VO2 máximo e diminuir seu risco cardiovascular, aumentar a sua expectativa de vida sem o risco de de problemas cardíacos.

O pesadelo de qualquer corredor é a lesão ortopédica. “Canelite”, Síndrome da banda íleo tibial, fratura por stress, todas são motivos de afastamento da corrida. A literatura especializada mostra que a cada 1.000 horas de treino ocorrem pelo menos 7 lesões. O tempo médio de afastamento é de 71 dias. É muito importante que você tenha informações sobre o seu risco de lesão para continuar correndo sempre e bem. De que adianta correr hoje e provocar lesões que vão te levar a uma péssima qualidade de vida no futuro com dores nos joelhos ou nos quadris. Corra para diminuir o risco não para aumentá-lo.

Entre os cardiologistas costumamos dizer que a corrida seria saudável até a meia maratona. Além dos 21 km começamos a nos expor a riscos maiores. Independente da distância que você procura é possível fazer treinos melhores e por mais tempo e também um número de provas maior com menor risco de lesões. Esse é o diferencial entre correr para a vida e de correr para competir e deve ser o principal foco de uma avaliação prévia ao início da atividade física.

 

Heron Bomfim é Cardiologista e Fisiologista do Exercício e Diretor Técnico da Cardiosports em Vila Velha – ES.

 

 

2017-05-08T17:01:24+00:00

Deixe um comentário!