Corridas de rua: De paixão a profissão

Era uma madrugada de agosto/1980, no Rio de Janeiro, dia dos pais. Me vi deitado sobre uma maca de hospital. Rosto, braços e parte do peitoral ainda manchados de sangue, proveniente dos cortes que os estilhaços do para brisas do Fusquinha que dirigia, me causaram. Naquela madrugada, acabei dormindo ao volante. Mas estas não eram as lesões mais graves. Braço direito e duas costelas quebradas, além de uma fratura exposta no fêmur (a haste de 40 cm, continua aparafusada em minha perna direita, como um troféu) também fizeram parte da lista.

Confesso, mesmo participando de várias provas de atletismo escolar, mais novo, não achava graça nas corridas de rua – que estava começando a ganhar adeptos no início da década -. Neste contexto, o médico que me tratava teve essencial participação. Num dia, dos três meses que passei internado e mobilizado, ele afirmou que dificilmente eu voltaria a andar sem apoio de muletas ou bengala, por exemplo.

Apesar da ‘agressividade’ que aquilo teve pra mim, um jovem de 24 anos, ativo e com muitos sonhos, recém-formado no curso de Ciências Biológicas, consegui andar sem utilização de nenhum aparelho, oito meses depois.

E lá se foi mais um ano de trabalho duro e contínuo para recuperar toda a musculatura atrofiada pela inatividade. Foi quando surgiu a corrida.

Um dos meus orientadores na academia, corredor de maratonas, me estimulou a correr para contribuir no fortalecimento e melhoria do condicionamento físico geral.

Por isso, dois anos depois, estive numa consulta com o mesmo médico. Na oportunidade, levei, de presente, um cartão carimbado (na época não recebíamos medalhas de participação), contendo colocação geral e tempo de conclusão da minha primeira meia maratona do Rio de Janeiro. Quando entrei em seu consultório, fiz um breve relato do acontecido anos antes, e entreguei o presente. Lógico que, com alguns ‘conselhos’ sobre como tratar um ser humano naquele estado, junto. Foi a última vez que nos vimos.

Ainda em 1982, morava no Rio de Janeiro. Pelo menos uma vez por mês tinha corrida no Aterro do Flamengo. E, as minhas preferidas eram as de 5km e 10 km.
Quando me mudei para Vitória/ES, em 1984, transferido pela empresa que trabalhava, acabei diminuindo minhas participações, pois ainda não era muito comum esta prática (as 10 milhas Garoto só veio em 1989) por aqui. Uns poucos, que praticavam e treinavam, eram chamados de malucos por correr pelas ruas sem um destino.
No final dos anos 90, embora as maratonas fossem meu sonho, me contentava com provas menores, em razão de ter pouco tempo para me dedicar aos treinos mais duros que esta distância exigia. Trabalhava como representante comercial e viajava muito.

Em janeiro de 2000, fui convidado por um amigo para participar da Maratona dos 500 anos do Descobrimento, no Rio de Janeiro, que era completamente diferente dos dias atuais. A largada era no bairro do Leme e terminava onde é hoje, no Aterro do Flamengo.
Pronto! Daí, só não fiz a maratona do Rio de Janeiro, em 2009. Sendo surpreendido por uma trombose, enquanto corria a maratona de Porto Alegre, ainda resquício do acidente. Foram mais nove meses inativos, me tratando.

Quando retornei as atividades esportivas em 2010, as maratonas e ultramaratonas passaram a ser meu foco.

Atualmente, estou com 55 participações em maratonas e várias ultramaratonas de quilometragens diversas (nacionais e internacionais). Mas, a maratona do Rio, sempre foi minha paixão. E, junto com alguns amigos em 2012, começamos a dobrar (84 km) este belíssimo percurso.

Saindo do Aterro do Flamengo às 02:00 horas da manhã, fomos no sentido contrário da prova em direção ao Recreio dos Bandeirantes e quando foi dada a largada oficial da maratona, retornamos ao Aterro, junto com os demais atletas. E assim me mantive, nos anos seguintes, dobrando o percurso (2013, 2014, 2015, 2016, 2017).
Este ano não dobrei, porém me deleitei com o Desafio, proporcionado pela organização. Correr 21 km no sábado e 42 km no domingo. Foi mágico!

Quando comecei a me aproximar da aposentadoria, cansado das viagens de trabalho, em conversa com meu treinador, amigo e quase irmão, professor Hudson Simões, da Assessoria Multiesportiva, me ofereci para trabalhar com ele nos treinamentos dos alunos da equipe de corrida, repassar um pouco da experiência que acumulei nos 30 anos de corridas. E, de pronto ele me acolheu. Voltei aos bancos da escola para cursar Educação Física e poder transmitir com propriedades acadêmicas as experiências vividas pelos anos como atleta. E, principalmente, expor o mínimo possível os alunos às lesões. Acredito que, no meu caso, a genética ajudou nunca ter lesionado em corridas, em virtude de muitos dos treinos que fiz não tendo nenhuma base científica.

Hoje, de cima dos meus 62 anos, sinto-me recompensado com tudo que recebi dos meus treinadores, professores, amigos e alguns corredores ao longo dos anos. Principalmente porque, quando comecei na década de 80, não existia internet e outras fontes de informação tão acessíveis. Era na base da experiência, do erro e acerto.

Em paralelo, porém, também me pego preocupado, em ver atletas amadores se arriscando em provas de longa distância. Alguns com menos de um ano de experiência em corridas, sem o preparo mental que estas exigem e, principalmente, o musculoesquelético adequado.

Atualmente, continuo exercendo a profissão de Educador Físico na Assessoria Multiesportiva como professor/treinador de corridas e caminhadas.

Concluo esta viagem de quase 40 anos, convicto de que escolhi os caminhos certos, mas os caminhos errados também. Afinal, foram estes que geraram os melhores frutos do meu aprendizado. Espero, que para os que se arriscaram nessa leitura, eu possa ter contribuído e despertado bons pensamentos para que nunca desistam!

Julio Paul é Ultramaratonista, Professor de Educação Física e Coach da Assessoria Esportiva MULTIESPORTIVA

2018-06-19T09:00:46+00:00

11 Comentários

  1. Jacqueline Bonadiman 21/06/2018 at 13:15 - Reply

    Julinho, sua determinação e perseverança é motivação para a gente alcançar nossos objetivos. Você é super alto astral, tem sempre uma palavra para nos motivar. Sou fã e meio suspeita pra faler. Há dois anos atrás, durante a corrida da Track&Field, você correu os últimos quilômetros comigo, me insentivando e com isso melhorei muito meu tempo. Somos abençoados em conhecer uma pessoa como você. Obrigada por compartilhar sua história.

  2. Gilberto Rosa - Giba 20/06/2018 at 07:07 - Reply

    Fantástico o artigo!! Julinho é uma referência para mim em corrida de rua, bem como o Prof Hudson, da assessoria Multiesportiva. Ao iniciar este esporte, que embora amador, sempre achamos que somos competitivos de alguma forma, ele que me acompanhou, me orientou, tratou. Ouvir este relato de superação e perseverança como este é, sem dúvida, uma aula de vida. Parabéns Runtolife por dar esta oportunidade a estes atletas para testemunharem suas experiências. Parabéns Julinho por toda sua trajetória de vida e dedicação a este esporte. Todos saímos vitoriosos com um relato deste.

  3. Rodrigo Araújo 19/06/2018 at 22:06 - Reply

    Julito, você é nossa inspiração! Obrigado por compartilhar um pouco de sua história, e principalmente pela amizade e pelos muitos kms e kms de amizade!

    Abração e que Deus nos dê muita saúde para nos encontramos pelas pistas e trilhas!

  4. Luiz André de Souza e Mello 19/06/2018 at 19:07 - Reply

    Ler o relato do amigo, irmão e Mestre Julito é muito bom, um misto de paixão, humildade e superação, características de um verdadeiro vencedor. Tive o prazer em dividir lado a lado algumas Maratonas com esse cara e a certeza de ouvir uma palavra de apoio, de incentivo, de motivação nos momentos de dificuldade e perda de foco. Parabéns Mestre.

  5. Giuliano Santos 19/06/2018 at 11:29 - Reply

    Mestre Julito!!!
    Só peço a Deus um pouco mais de vida, para poder correr ao seu lado e dessa IRMANDADE maluca que tem muita história pra contar!!
    Estou aqui com nosso amigo e comandante Mário Lacerda, que manda um grande abraço a todos e disse que está nos esperando de novo na BR135.
    Obrigado ao Marcelo Barros por criar um espaço onde histórias como essas possam ser compartilhadas e possam continuar a nos motivar a sair e fazer o que a gente gosta.
    RUN TO LIFE!!
    Parabéns também ao nosso Coach Professor Hudson Simoes! Você é um exemplo pra mim de ser Humano, Pai, Amigo e acima de tudo, apaixonado pela corrida!!
    Deus abençoe essa IR pra sempre!!

  6. Sandro 19/06/2018 at 10:57 - Reply

    Mestre Julito, que relato sensacional esse seu, meu irmão Carioxaba! TOP demais! Só tenho ótimas lembranças suas, incluindo sua querida e abençoada família que tenho o prazer de conviver! Tenha certeza que desde o primeiro dia que treinamos juntos percebi que deveria seguir seus sabios conselhos e seus incentivos para seguir nos treinos, afinal vc lembra ne? Era dureza para mim com quase 3 dígitos e 1,90mts de altura arrastar esse esqueleto todo….rsrsr. Mas nesses quase 15 anos de Irmandade, temos muitos Kms percorridos, sofridos e desfrutados juntos neste mundão maravilhoso que é a Corrida de Rua … (Arraial do Cabo, Búzios, RJ, Santiago, 10 Milhas, Porto Alegre, Pampulha, SP, BR135, …….).
    PARABÉNS e TMJ irmão! bj no seu coração!

  7. Railer 19/06/2018 at 10:54 - Reply

    Julio é minha inspiração e foi quem me treinou para fazer minha primeira maratona! Junto com Hudson, na Multiesportiva, recebemos muitos ensinamentos importantes e que nos dão bastante confiança e preparo para as provas. Linda essa história, esse relato e, com certeza, motivador. Desejo muito sucesso, saúde e cada vez mais corridas!

  8. Marcelo Leite Barros 19/06/2018 at 10:23 - Reply

    Foram vários treinos juntos…foram varias provas juntos!!! O que dizer desse cara? Muito fácil….ser humano exemplar, atleta exemplar, amigo, companheiro, um verdadeiro MESTRE, como ele é conhecido em nosso grupo. Julito, vc sempre nos incentivou e nos presenteou com suas histórias, seu apoio, seu exemplo!!! Um grande prazer ter vc em minha história!!! Grande abraço irmão!!!

  9. Maninho Pacheco 19/06/2018 at 10:17 - Reply

    Julinho é mais do que um corredor maratonista e ultra, mas um mito. Não daqueles inalcançáveis, mas dos que estão ao nosso lado. Conselheiro, amigo, pai, irmão. De tudo um pouco. E um parceiro inabalável em todas as situações: esportivas, espirituais, etílicas, pessoais. Conhecê-lo e privar de sua amizade é mais do que uma alegria, mas um privilégio. Raro privilégio. A história das corridas de rua em nosso estado não se resumem a Julio Paul. Mas quem for contar a história das corridas de rua no Espírito Santo e não falar dele, estará mentindo. Nossa benção, mestre querido e amado. Bjo fraterno e bons treinos. Sempre!

  10. Bruno 19/06/2018 at 09:49 - Reply

    Que inspiração! Bela história, que com certeza só nos motiva. Faço 50 daqui 8 dias. Tenho apenas 3 meia-maratonas no currículo, mas ainda sou garoto. Em breve vou poder estar contando a história da minha primeira maratona. Obrigado por compartilhar, Júlio!

  11. Hudson 19/06/2018 at 09:15 - Reply

    SUPERAÇÃO TOTAL GUERREIRO SUCESSO SEMPRE!

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