Uma história de superação: da corrida ao tri…

Ao completar um ano de idade os médicos disseram aos meus pais que eu não andaria, por ser diagnosticado com paralisa cerebral com encurtamento dos tendões que causou atrofia da musculatura dos membros inferiores. Depois de muita fisioterapia e procedimentos médicos aos dois anos e meio comecei a andar. Entretanto, não apoiava os calcanhares no chão o que me caracterizava como diplégico.

Meus pais foram orientados pelo renomado médico Lidio Toledo a me colocar para fazer natação, devido aos problemas respiratórios e judô para aprender a cair, já que as quedas eram constantes, pela falta de equilíbrio e de tônus muscular para levantar os pés. Aos 13 anos de idade, este médico fez em mim uma cirurgia a laser com alongamento do tendão calcanear e me lembro até hoje de suas palavras de que eu no máximo evoluiria 70% da minha marcha, melhorando minha forma de andar mas que eu nunca andaria perfeitamente.
Como todo menino brasileiro, meu sonho era ser jogador de futebol. Cheguei ate tentar fazer testes em clube e me chocou muito quando fui impedido de fazer a peneira no futsal do Vasco da Gama, por ser deficiente. Então jogava futebol entre os amigos, que considero a melhor coisa que me aconteceu, pois eles me tratavam como se eu não tivesse deficiência. Me exigiam, me incentivavam e isso contribuiu muito com o meu desenvolvimento motor.

Durante toda minha vida pratiquei diversos esportes, lutas, basquete, polo aquático, musculação e vários outros. Por conta disso ao escolher a faculdade, fui fazer educação física. Quando estava estagiando em um campeonato de futebol, fui correr para pegar um resultado e uma pessoa me viu correndo e me indicou fazer teste para integrar uma equipe de futebol paraolímpico. E assim onfiz. Joguei por uns 3 meses e tive que largar, pois o horário dos treinos conflitavam com os da faculdade. Quando terminei a faculdade fui convidado a integrar uma equipe em formação. Depois do meu primeiro campeonato, fui convidando a me transferir para a equipe de futebol paraolímpico do Vasco da Gama, dez anos depois de ser impedido de fazer peneira no mesmo time. Eu sonhava em ser jogador de futebol e aos 24 anos, tive meu sonho realizado. Joguei por 5 anos, tive a honra de ser campeão brasileiro, ter tido uma passagem breve pela seleção e confesso ter sido uma grande frustração ser tão ligado ao esporte e não participar das paralimpiadas do Rio em 2016. Entao intencionei e projetei a manifestação deste sonho de um dia participar de uma paralimpiadas. No futebol apesar de fisicamente esforçado pois sempre gostei de correr na rua e na praia, tecnicamente nunca fui um dos melhores e provavelmente não seria convocado.

Apaixonado também por corrida de rua, decidi que este era o caminho. Concomitantemente comecei a estudar física quântica e intuí que deveria fazer algo por um propósito maior e que minha missão era inspirar pessoas através do meu exemplo. Assim decidi correr longas distâncias e treinar para maratonas estabelecendo como meta em 4 anos completar a World Marathon Majors, uma competição em formato de campeonato para maratonistas iniciada em 2006. Ela é composta de seis maratonas anuais realizadas em Chicago, Londres, Boston, Nova York, Berlim e Tóquio (desde 2013); uma prova bienal, a maratona do Campeonato Mundial de Atletismo e uma quadrienal, a maratona dos Jogos Olímpicos). Mas para minha surpresa pessoas com o meu grau de deficiência, só podem participar oficialmente das competicões nas provas rasas ate 800 metros. Minha classificação funcional é t35 do paratletismo que vai de t35 a t38. (O atletismo paralímpico é praticado por atletas com deficiência física, visual ou intelectual. Os competidores são divididos em grupos de acordo com o grau de deficiência constatado pela classificação funcional.). Fiquei impedido de participar oficialmente da maratona paraolímpica.

Neste período me tornei ativista quântico, e resolvi estudar e aplicar os conceitos da mecânica quântica no esporte. Então meu objetivo era criar técnicas para correr longas distâncias em um menor tempo possível. Em março de 2017 como preparação eu me dei de presente a inscrição na corrida de outono do circuito das estações. Foi um momento mágico da minha vida. Correr 10 km no aterro do Flamengo, com um percurso lindo, passando pelo Pão de açúcar o grande cartão postal da minha cidade. Além disso estar ali representava muito para mim, pois carregava a bandeira de um clube e acima de tudo do esporte paraolímpico. Mas para colocar minhas técnicas à prova eu precisava participar de competições oficiais. Foi aí que solicitei a diretoria do departamento paraolímpico do C.R. Vasco da Gama para me inscrever nas provas de atletismo. E assim o fizeram. A prova mais longa para minha classe são os 800 metros rasos. Participei e correndo pela primeira vez em uma pista de atletismo sem sapatilha, com tênis de corrida de rua, consegui quebrar o recorde nacional da prova, fazendo o tempo de 3′ 12″.

Uma semana depois fui convidado a participar de uma competição pela F.A.R.J. para melhorar minha marca, correndo com atletas convencionais, profissionais do esporte, atletas com as melhores marcas do estado. Outra experiência única correr na mesma pista que corredores que fazíam os 800 metros na casa de 1′ 40″. Nesta prova em especial eu fiquei deslumbrado com ritmo dos atletas de ponta e sai muito forte e nao consegui controlar a corrida, fazendo um tempo mais alto do que o anterior. Nesta mesma época eu me frustrei ao saber que esta prova não integrava o programa paraolímpico, ou seja para minha classe funcional estariam disponíveis provas até 400 metros. Provas rápidas, de força, potência, e, o meu biotipo não favorece a este tipo de prova, foi entao que entendi que o caminho até as paralimpiadas não seria pelo atletismo. Comecei a pesquisar as modalidades e descobri que em 2016 o paratriathlon tinha entrado no programa paralímpico (Paratriathlon é uma variante do triathlon para atletas com deficiência física. A modalidade é gerida pela União Internacional de Triathlon e fez a estreia nos Jogos Paralímpicos de Verão de 2016 no Rio de Janeiro, Brasil).

Mais uma troca de modalidade e os meus objetivos e metas haviam se expandido. E foi perfeito porque eu não deixaria a minha paixão esportiva que é corrida de rua e incluiria mais dois esporte que adoro, o ciclismo e a natação, uma vez que pratiquei natação por toda a minha infância como indicação médica e trabalhei muito tempo como professor de natação infantil. O ciclismo também esteve presente em minha vida, não como esporte, mas como meio de locomoção. Sou cicloativista, mas nunca havia praticado como atividade de competição.

E, assim mais um Desafio. Hora de se reinventar mais uma vez e redefinir minha meta ouro que era me tornar um Ironman. Mas e o sonho das paralimpiadas em Tokio 2020?

Foi assim que criei o treinamento mental para esporte e venho me autoaplicando com a intenção de validálo ao alcançar o índice para as próximas paralimpiadas como paratriatleta.
Contudo, em julho de 2017 comecei a treinar sozinho com uma.estrutura bem mínima de treino fazendo o que eu podia. Ao chegar na Bahia em setembro de 2017, fazia os treinos de natação no Porto da Barra e, comprei uma bicicleta road usada na Olx por 200 reais. Faz parte desta técnica empreender a carreira de atleta em todos os sentidos, desde atrair os resultados desejados, estrutura de treino, material.

Todos os dias eu me visualizava, possuindo toda estrutura necessária para alcançar os meus objetivos. Ainda sem material eu me inscrevi na primeira prova de triathlon, a prova do Sesc Triathlon que valia como Campeonato Baiano ainda em setembro do mesmo ano.
Uma semana antes da prova, ao terminar o treino de natação, eu vi umas pessoas pedalando no rolo, algo que só havia visto pela Internet, ao fazer a técnica da modelagem esportiva, onde eu visualizo atletas de sucesso realizando treinos e provas e modelo suas técnicas. Então me aproximei deste grupo para modelá-los e confesso fiquei deslumbrado ao ver pela primeira vez uma equipe de triathlon.

Me aproximei do treinador ao fim do treino, contei a minha história e perguntei se ele poderia me ajudar, já que não tinha nenhuma experiência com este novo esporte. Ele então me convidou para fazer um teste na pista de corrida da Ufba.
Primeiro treino com uma equipe em uma pista. Ao fim do treino, informei que estava inscrito na prova na semana seguinte, ele perguntou se estava com todo material? E, eu não possuía nenhum material, nem a bike, nem o óculos, macacão, enfim. Não sabia como faria a prova mas tinha a certeza que conquistaria meus objetivos.
Neste mesmo dia fui apresentado a Beto Lopes, considerado uma lenda do triathlon baiano. Ele tem um projeto social, Ação Tri Cidadão e me forneceu todo o material necessário para participar da prova, me ensinou o que era uma transição e tudo o mais o que eu precisava saber para completar uma prova.
Assim, fui para minha primeira prova com o objetivo apenas de conseguir completar e depois de 2 horas e 26 minutos cruzei a linha de chegada. O que para mim era um feito histórico em face de tudo que havia passado para chegar naquele lugar.

Comecei a treinar com a equipe, no projeto e fazer treinos de natação em piscina com um treinador especializado em triathlon, treinando ao lado dos melhores triatletas da Bahia. Parecia mágica, mas na verdade eu havia atraído tudo aquilo meses antes.
Seguindo minha jornada, agora já como um triathleta em dezembro de 2017 fui para minha segunda competição, ainda sem objetivos competitivos, mas com objetivo pessoal de manter a minha projeção que era fazer a prova em menos de 2 horas e através do treinamento mental consegui baixar meu tempo para 1 hora e 44 minutos. Ainda um tempo alto, mas para quem só havia aprendido o que era triathlon em 3 meses estava muito feliz. Neste processo participei de diversas corridas de rua, representando o projeto e a equipe, que foi muito importante para manter o ritmo de competição.

Em 2018 é chegado o momento de galgar objetivos maiores e participar do circuito nacional de paratriathlon. Em minhas projeções determinei que 2017 seria, para conhecer a modalidade, 2018 disputar em nível nacional, 2019 já estar em nível internacional com foco nas paralimpidas e em 2020 estar no auge e conseguir fazer a distância do triathlon paralimpico (750 metros + natação 20 km ciclismo + 5 km corrida) abaixo de 60 minutos conseguindo índice para as paralimpiadas de Tóquio validando as técnica mentais criadas, provando que é possível criar a nossa realidade esportiva através do poder do pensamento.

Salvador seria palco da primeira prova de paratriathlon do ano e eu iria competir ao lado dos melhores parathletas do Brasil. Nesta prova superei as minhas expectativas e fiz a minha melhor marca com o tempo de 1 hora e 17 minutos estando classificado como o segundo melhor do ranking nacional na minha categoria PTs3.

Assim, sigo treinando cada dia mais forte em busca de objetivos maiores, para no segundo semestre de 2018 competir a nível internacional, e, até o fim do ano estar com tempo abaixo de 1 hora e 10 minutos com uma boa técnica nas três atividades.
Provando sobretudo para mim mesmo que com autoconhecimento, metas bem definidas e um mental bem treinado é possível criar a realidade e alcançar bons resultados.

Em breve, compartilharei minhas novas conquistas e resultados.

Fellipe Barros é Paratriathleta e Coach Esportivo.

2018-05-15T15:45:35+00:00

12 Comentários

  1. Cristiane 22/05/2018 at 10:19 - Reply

    Uau! Q historia linda!

  2. Carla 20/05/2018 at 22:37 - Reply

    oiii meu lindo! lembro bem das suas fisioterapias eu te levava toda semana, as aulas de judô e natação ali na barão do bom retiro,você sempre muito esforçado, colocava uma blusa grande do seu pai e ficava correndo de um lado pro outro dizendo que era faixa preta.Peço a Deus que te de muitas vitórias você merece, meu menino de ouro.

  3. Fausto 18/05/2018 at 00:37 - Reply

    Felipe, já conhecia um pouco da sua história maravilhosa contada com grande entusiasmo por sua mãe.
    É um exemplo se superação e espero que sirva como incentivo para que outros consigam vencer os desafios, os obstáculos que a vida nos impõe.
    Acredite que vc com otimismo, dedicação e muita luta você pode tudo.
    Seja forte, determinado que as vitórias e conquistas surgirão.
    Torço pelo seu sucesso e espero que com sua enorme força de vontade, alcance a felicidade que você merece.
    Acredite na vida, acredite em você.
    Na sua torcida.
    Seu exemplo mostra que é preciso coragem para ser diferente e muita competência para fazer a diferença.
    Fausto.

  4. Ricardo figueirero 17/05/2018 at 23:19 - Reply

    Muito legal a história de superação desse meu amigo.
    Muito sucesso!
    Rumo a Tóquio!
    Abç

  5. Katia Rodrigues 17/05/2018 at 15:39 - Reply

    Que maravilha de depoimento! Você venceu todas as barreiras, já nasceu vencedor. Boa sorte! Deus abençoe a sua Vitória e com felicidade dobrada por ser no Japão.

  6. Maria luiza 17/05/2018 at 14:22 - Reply

    Não esperava menos de você meu guerreiro. Exemplo de vontade e superação.
    Bora Tóquio te espera!!!

  7. Attilio Cesar 16/05/2018 at 18:18 - Reply

    Tenho a honra de te conhecer através da amizade com sua mãe e ficamos entusiasmados e começamos a achar que também somos capazes de ultrapassar nossos limites
    Obrigado menino Valente

  8. Jorge Eliano 16/05/2018 at 14:56 - Reply

    Agradeça sempre a Deus, o que foi obstáculo no passado, nada mais era, do que Deus trilhando a sua estrada e mostrando que nada é impossível.Sucesso na sua vida, com muita força de vontade e amor!

  9. Josdete 16/05/2018 at 14:53 - Reply

    Parabéns pelo seu esforço e perseverança! Continue indo atrás de seus objetivos!!! Sempre em frente! Sucesso!!!

  10. Lélio Almeida 16/05/2018 at 14:27 - Reply

    Parabéns meu amigo. O que pude acompanhar vejo uma superação total. Maravilhoso ver como se superou, passou dos limites. Que Deus e Meishu Sama iluminem seus passos sempre.

  11. Simone 16/05/2018 at 07:03 - Reply

    Tu é Guerreiro, Fellipe!!!
    Tóquio te espera!!!
    Na torcida sempre por Vc!!
    Beijão da amiga Si

  12. Nizete Lemos 16/05/2018 at 02:16 - Reply

    Faaaala atleta!
    Muita emoção E orgulho!
    Sem dúvida nenhuma vc estará em Tóquio e. 2020.
    Meishu Sama estará te esperando.
    Bjs.

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